Guerra em comunidades da Zona Oeste do Rio já dura cerca de 10 dias; entenda

Grupos de traficantes invadindo comunidades tradicionalmente ocupadas por milícias podem estar por trás dos enfrentamentos.

Por Lívia Torres, RJ2 e G1 Rio

Moradores de comunidades da Zona Oeste do Rio de Janeiro convivem há cerca de 10 dias com confrontos violentos que, segundo investigações da Polícia Civil, podem estar relacionados com invasões de regiões por grupos criminosos rivais aos que já têm o domínio territorial.

O cenário

Os confrontos atuais ocorrem nas regiões da Muzema e Gardênia Azul e estão relacionados com criminosos da Cidade de Deus, que estariam participando de pelo menos uma das invasões.

As duas primeiras regiões são há anos dominadas por milicianos e a última, por traficantes.

Além dos tiroteios, moradores relatam toques de recolher nas comunidades invadidas e até em regiões vizinhas, como Rio das Pedras.

Boto, Zinho, Lesk e Gargalhone têm relação com os confrontos atuais na Gardênia, segundo investigações — Foto: Reprodução RJ2

Gardênia: da milícia para o tráfico

A Delegacia de Homicídios da Capital investiga 7 mortes na Zona Oeste nos últimos dias, e quatro delas teriam relação com a guerra na Gardênia.

A guerra começou com uma disputa pelo domínio de territórios entre os milicianos Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, e André Costa Barros, o André Boto.

Para despistar as autoridades, André Boto fez harmonização facial, mas foi preso em 2021. Mesmo da cadeia, ele continua dando ordens, segundo os investigadores.

Para invadir a Gardênia Azul e Curicica, ambas em Jacarepaguá, e o Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, regiões chefiadas por André Boto, Zinho usou a influência dos milicianos Philip Motta Pereira, o Lesk, e Leandro Siqueira de Assis, o Gargalhone, que já dominavam uma pequena localidade conhecida como “Marcão”, que fica dentro da Gardênia.

Só que, segundo investigações, Lesk e Gargalhone perderam o apoio de Zinho. Para conseguir permanecer no local e tomar toda a região, a dupla foi pedir ajuda a traficantes da Cidade de Deus, que é vizinha da Gardênia.

No último sábado, Lesk, Gargalhone e cerca de 50 traficantes da Cidade de Deus, que pertencem à maior facção criminosa do Rio, se reuniram na localidade Ponte Grande para atacar os milicianos da Gardênia. Os homens estariam vestindo roupas de policiais civis.

De acordo com testemunhas, desde então o tráfico conseguiu expandir os negócios para dentro da Gardênia, que era dominada pela milícia há mais de três décadas.

Só nesta semana já havia pelo menos duas bocas de fumo no local. Lesk, que antes pertencia à milícia, teria migrado de vez para o tráfico de drogas.

Imagens de cargas de drogas com o nome da Gardênia e inscrição da facção estão sendo investigadas.

Mensagens determinam toque de recolher nas comunidades — Foto: Reprodução/TV Globo

Mensagens determinam toque de recolher nas comunidades — Foto: Reprodução/TV Globo

Adolescente baleada e o sofrimento dos moradores

Na semana passada, uma adolescente de 17 anos foi baleada a poucos metros de casa, durante um confronto entre traficantes e milicianos.

Ela foi atingida por tiros na barriga e na perna.

A polícia investiga se os traficantes do Complexo da Penha estão fornecendo armas para criminosos da Cidade de Deus invadirem a Gardênia Azul.

“A gente queria mais segurança, morador não tem que andar com medo de andar na rua, com tanto problema, tiroteio, a gente fica refém deles”.

Os moradores da Gardênia dizem que estão acuados e pedem mais segurança.

Muzema e Rocinha

Investigações mostram que a dinâmica dos confrontos da Muzema também pode estar relacionada com a invasão por um grupo de traficantes. Neste caso, porém, seriam traficantes da Rocinha, na Zona Sul, que podem ter montado uma “base” no Morro do Banco, vizinho à Muzema, para a invasão.

No sábado, o miliciano Rodrigo Dias, conhecido como Pokémon, morreu durante uma ação da PM. Ele era apontado como um dos chefes da milícia da Muzema e de Rio das Pedras.

Nesta segunda-feira (23), um entregador de farmácia identificado como Luiz Henrique da Silva Gonçalves, de 19 anos, foi assassinado na região do Sitio Vitória, na Muzema – em um crime com caraterísticas de execução.

A ocorrência da Polícia Militar afirma que Luiz Henrique estava na porta da farmácia onde trabalhava fazendo entregas quando quatro homens armados o chamaram no outro lado da calçada e atiraram.

Nas redes sociais, outros moradores também falaram sobre a rotina de terror:

“Muito triste com o que aconteceu na Muzema ontem, inesquecível ver aquele corpo estirado no chão. Custei pra dormir, foi horrível e a cena não me sai da cabeça”, escreveu uma pessoa.

O final de semana também foi de tensão e violência nas regiões que são alvos de disputa dos criminosos. No sábado, policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) foram chamados para atender uma suposta ocorrência em que uma família estaria sendo feita de refém, em um condomínio. A PM diz que a denúncia era falsa e os agentes foram atacados a tiros.

Moradores dizem que à noite, o policiamento some, e eles ficam à mercê dos criminosos.

“A polícia chegou, nesse fim de semana, expulsou eles de lá, mas vai embora, logo cedo da noite e eles voltam e continuam lá. Agora eles tão lá, nesse momento. O que acontece? a polícia fica no asfalto e eles lá no morro impondo toque de recolher, impondo terror em cima dos moradores”, relata um morador.

Cidade Integrada

A Muzema é uma das duas comunidades onde o governo do estado implantou o programa Cidade Integrada, em janeiro do ano passado.

A promessa era investir R$ 500 milhões nas forças de segurança e também em programas sociais que levassem educação, emprego e saúde para as favelas.

Quem mora por ali pede socorro e que as promessas sejam cumpridas: “Tô pedindo, inclusive, socorro, tá? Eu, inclusive, tenho uma pessoa da minha família que já se mudou, na semana passada, e eu mesmo tô pensando em me mudar de lá porque não dá pra viver numa situação dessa”, diz um morador.

“A gente pede providências, né, do senhor governador, que, por sinal, no início do ano passado esteve lá fazendo campanha pedindo votos e prometendo que ia resolver esses problemas todos “, finaliza.

A PM declarou que o policiamento na UPP da Rocinha segue orientado a impedir possíveis saídas de criminosos da favela, com cercos montados nos principais acessos da comunidade e que o patrulhamento na Muzema permanece intensificado, em vários pontos, 24 horas por dia – ao contrário do que disseram os moradores.

A Polícia Civil afirmou que investiga a atuação de facções criminosas em todo o estado e que, somente na Muzema, dentro do programa Cidade Integrada, prendeu 87 criminosos. A PM disse também que intensificou o policiamento na Cidade de Deus e na Gardênia Azul pra que a população tenha o direito de livre circulação.