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Banco Mundial ajuda produtores de MS a ficarem “de olho no futuro”

Mato Grosso do Sul é um dos estados financiados pelo Banco Mundial no projeto ABC Cerrado, que impulsiona agricultura com baixa emissão de carbono

A emissão dos gases “estufa” que impulsionam o aquecimento global, processo que preocupa ambientalistas em todo o mundo, tem na atividade agropecuária agressiva um dos grandes vilões. A falta de consciência no manejo afeta o ciclo da natureza, prejudica a própria atividade agropecuária e põe em risco o já alarmante desafio de alimentar o mundo, uma demanda cada vez mais crescente em todo o planeta.

Essa realidade provocou o Banco Mundial, que sustenta projetos em países em desenvolvimento, a tentar mudar, ao menos em parte, esse cenário tão ameaçador. Isso porque oito estados brasileiros que abrigam o segundo maior bioma do país, o Cerrado, são contemplados pelo Projeto ABC Cerrado, que promove práticas de agricultura com baixa emissão de carbono.

Um dos estados e também um dos destaques é Mato Grosso do Sul, que já recebeu cerca de R$ 1 milhão do total de US$ 10,6 milhões do FIP, sigla em inglês para o Programa de Investimentos em Florestas, do Banco Mundial. Financiado pelo Banco, o projeto tem parceria do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural).

Com o dinheiro, a Embrapa fornece tecnologia e o Senar é responsável pela orientação dos produtores, distribuição da tecnologia e acompanhamento das atividades. O ABC Cerrado, que em Mato Grosso do Sul contempla produtores de médio e grande porte – em especial pecuaristas – estabelece 4 técnicas que aumentam a produtividade e preservam o meio ambiente:

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta – Uma área pode abrigar floresta plantada e pastagens e lavouras, uma integração que permite o controle natural de pragas e a diminuição da emissão do carbono; Sistema Plantio Direto – A palhada que vem da colheita protege o solo do sol e da chuva, evita o surgimento de erosões e ajuda na fixação do carbono no solo. Além delas, há também a Recuperação de Pastagens Degradadas e o Plantio de Florestas.

O Senar em Mato Grosso do Sul, afirma, por meio da assessoria de imprensa, que entre 2016 e 2018 70 turmas com 911 participantes foram capacitados em Campo Grande e outros 25 municípios. Conforme o Serviço, a maior demanda foi pela formação que ensina aos produtores como recuperar as pastagens degradadas.

À esquerda, Maurizzio, especialista sênior do Banco Mundial em agricultura durante visita à Fazenda Guavirá Poty, em São Gabriel do Oeste (Foto: Divulgação)

À esquerda, Maurizzio, especialista sênior do Banco Mundial em agricultura durante visita à Fazenda Guavirá Poty, em São Gabriel do Oeste (Foto: Divulgação)

Produzir mais, em menor área, com tecnologia – É o que explicou, de Washington, Capital dos Estados Unidos, o especialista sênior em agricultura e responsável pelo projeto ABC Cerrado no Banco Mundial, Maurizio Guadagni.

“Fundamentalmente o objetivo é demonstrar que no Brasil a agricultura pode crescer como há crescido e também estender sem abrir novas áreas. Crescer sem necessariamente ampliar a área, reduzindo a devastação das florestas e a grande quantidade de emissão de carbono na atmosfera”, comenta.

Maurizzio afirma que a pecuária é a atividade “onde há mais espaço para melhorar”. Um dos objetivos do projeto é aumentar o número de cabeças de gado por hectare, ou seja, produzir mais carne em menor área, reduzindo assim, o dano ambiental e contribuindo com a demanda de alimentos.

“É melhorar o ritmo de incremento, para fazer crescer o país, abastecer o mundo de comida e deixar a área livre de pastagem. A demanda pela soja e carne está aumentando, a população está aumentando, especialmente na Ásia e na China, para produzir essa carne é mais caro. Se for possível com o mínimo uso de recursos naturais, o objetivo é crescimento verde, mantendo recursos naturais”, relata.

“Para o banco mundial é necessário abastecer o mundo de comida. O Brasil tem todo esse potencial porque tem terras férteis, água e tudo pode ser afetado se a floresta não for mantida”, alerta.

O especialista explica que em diversos países há cerca de 5 cabeças de gado por hectare e que essa realidade é “é relativamente fácil de conseguir” desde que haja assistência técnica. “A assistência técnica é um segmento muito importante aos pecuaristas, com investimento e assistência técnica o projeto conseguiu intensificar a produção”.

“O cerrado é a área de expansão de agricultura mais grande do mundo neste momento, é uma área com potencial agrícola enorme, é muito maior do que na Amazônia. Não é somente importante proteger a Amazônia para o mundo, porque tem um papel muito importante que é produzir as chuvas para o restante do país incluindo Mato grosso do sul”, pontua, sobre a importância de conservar o bioma.

Pastagem degrada no Sítio Santa Ana (Foto: Divulgação)

Pastagem degrada no Sítio Santa Ana (Foto: Divulgação)

No sítio Santa Ana, pastagem recuperada após ação do projeto ABC Cerrado (Foto: Divulgação)

No sítio Santa Ana, pastagem recuperada após ação do projeto ABC Cerrado (Foto: Divulgação)Segundo o Banco Mundial, o projeto, em todos o estados, já recuperou mais de 88 mil hectares de pastagens de forma direta e 312 mil de pastagens de forma indireta. A média de ocupação do gado por hectare, que antes era de 0,7, passou a 2,5. O ganho de peso do gado aumentou de 400 para 900 quilos e os meses de abate, que antes eram de 36, diminuíram para 19.

Programa chega ao fim – Responsável por formar duas turmas em Mato Grosso do Sul, o Senar explica que em fevereiro o programa chega ao fim no estado, mas deixa um rastro de resultados positivos. É o que explicou o coordenador do departamento de assistência técnica e gerencial do Senar, Francisco Pereira Paredes Junior.

“Trabalhamos na primeira fase com 216 produtores. Ao longo de 2017 começou a segunda fase, atendendo 44 produtores. Aí as tecnologias que os produtores adotarem eles continuam. Tem alguns produtores de pecuária de corte que a gente tem outro programa que é o Mais Inovação. Esses, como gostaram do trabalho, migraram com o regional”, comenta.

“Teve um aumento de unidade animal por hectare, passamos de 1,8 a 2,3 e esse ganho de produtividade é dinheiro no bolso. A gente trabalhou aproximadamente com 6 mil hectares, teve áreas que foram renovadas, recuperando pastagem ou outro tipo de manejo e ela tem um impacto direto na parte ambiental, é uma questão de manejo do produtor, é um número bastante grande e no dia a dia. Então essas inovações foram muito significativas”, afirma

Em São Gabriel do Oeste, a 140 km de Campo Grande, uma propriedade que abriga pecuária de melhoramento genético é “modelo” do projeto ABC Cerrado e foi utilizada no portfólio do Banco Mundial como exemplo de sucesso.

Guavirá Poty – “Flor de Guavira”, em guarani – é a menina dos olhos do proprietário Renê Miranda Alves. Nos 270 hectares da propriedade, Renê conseguiu, com a tecnologia e a formação, melhorar a produção e recuperar as pastagens.

“Eu consegui incrementar mais produtividade na área, depois do projeto eu consegui colocar mais unidade animal por hectare”. Antes, a ocupação do gado era de 1,6 a 2 cabeças de gado por hectare. Agora, conta, a média é de 3,5. “Tem setor dentro da propriedade mais intensificado que trabalha com até 6 cabeças de gado por hectare”, comenta.

Além de reduzir a ocupação do gado, Renê aplicou, na propriedade, a técnica de integração agricultura pecuária, com objetivo de alimentar o gado. “A gente plantou o milho para fazer silagem para suplementar o gado na época da seca. Se você não tiver uma fonte alternativa para época da seca a propriedade não comporta”, explica.

Hoje, afirma, 100% da propriedade está com a pastagem recuperada. Renê abrigou o ABC Cerrado porque já era tradição, conta, a preservação ambiental. Antes do projeto, ele já havia implementado um processo de recuperação de nascentes na fazenda.

“Eu tenho um trabalho de recuperação de nascentes há mais de 20 anos, que é maravilhoso. O projeto ABC Cerrado fez a gente ser mais cuidadoso. A gente foi cuidando dos detalhes, hoje dentro daquilo que a gente pensa do meio ambiente, a gente está fazendo o trabalho de casa”, relata.

O projeto também ajudou o produtor a lidar com as mudanças climáticas, que provocaram, conta ele, instabilidade nas estações do ano. “Antes eram mais definidas as estações, a chuva e a seca. Há alguns anos está havendo instabilidade muito grande, a seca começa antes, as águas demoram para começar”, explica.

“O ano passado nós tivemos o privilégio da nossa propriedade ser escolhida para representar Mato Grosso do Sul no Banco Mundial. Nós recebemos a visita do Maurizzio, ele esteve na propriedade e ficou de queixo caído com a recuperação de nascente”, declara, orgulhoso.

Renê afirma que ao comprar a fazenda, anos atrás, as nascentes eram apenas erosões. “Eu identifiquei onde nascia e fui recuperando”. Hoje, com o ABC Cerrado, conseguiu incremento acima de 10% na produção e aumento de 50 a 60% no índice de produtividade.Fonte: Campo Grandenews

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