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Imagens e áudios mostram como quadrilha usou bombas e fuzis para invadir penitenciária e soltar presos

Imagens e áudios inéditos, obtidos pela produção do Fantástico, mostram como uma quadrilha usou bombas e fuzis para invadir a Penitenciária Estadual de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, e soltar 29 presos. A ação aconteceu na madrugada do dia 11 de setembro deste ano.

Com celulares, detentos gravam tiroteios, comemoram o começo do ‘resgate’ e debocham dos agentes e dos policiais.

“O bagulho é louco!”, “seus frangos” e “vai segurando, seus vermes do diabo! uh-hu!”, dizem os presos.

Muro da Penitenciária Estadual de Piraquara foi aberto com explosivos — Foto: Reprodução/TV Globo

Muro da Penitenciária Estadual de Piraquara foi aberto com explosivos — Foto: Reprodução/TV Globo

A primeira explosão abriu um buraco no muro da penitenciária. O delegado-titular do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), Rodrigo Brown, explicou como a quadrilha atuou.

“Eles usaram serras parara cortar os vergalhões, que no momento que você explode o muro, o concreto cai, mas às vezes ficam alguns vergalhões ali, de aço, ainda pendentes”, detalha.

O muro, que já foi consertado, ainda tem a marca da explosão. Depois de abrir o buraco, os criminosos avançaram por um pátio, romperam o alambrado e alcançaram uma galeria, onde colocaram mais uma carga de explosivos.

O vídeo de uma câmera de segurança mostra um detento acenando com um pano. É o sinal que mostra onde deve ser feita a segunda explosão.

Câmeras de segurança da Penitenciária de Piraquara registraram as explosões — Foto: Reprodução/TVGlobo

Câmeras de segurança da Penitenciária de Piraquara registraram as explosões — Foto: Reprodução/TVGlobo

Os bandidos, então, colocam os explosivos no local indicado e se afastam. Enquanto isso, outros bandidos atiram contra as guaritas, inclusive na qual a câmera ficava. É possível ver fragmentos de cruzando a lente do equipamento.

Acontece a segunda explosão e, menos de um minuto depois, os presos começam a fugir.

Em outra imagem, é possível ver dois homens atirando de fuzil.

Os homens que aparecem armados em um dos vídeos abriram fogo contra policiais militares que estavam em guaritas.

“Eles travaram um tiroteio muito forte com as guaritas, que são guarnecidas aqui pelos policiais militares”, informou o secretário da Administração Penitenciária, o coronel da Polícia Militar (PM) Élio de Oliveira Manoel.

As marcas de tiro ainda estão nas paredes e nos vidros. A penitenciária tem seis guaritas, mas, naquela madrugada, havia policiais de plantão em apenas três delas.

“O que dava uma cobertura de todo o perímetro da unidade”, garante o secretário.

Manoel informou que as três guaritas ocupadas por PMs foram alvos de tiros pelos criminosos que invadiram a penitenciária.

Para revidar, os policiais militares tinham apenas pistolas. Eram três policiais, um cada ponto de observação.

“Não é o ideal, em termos de segurança. Nós sempre, se pudéssemos, trabalharíamos com dez, com doze policiais militares fazendo a segurança externa da unidade, mas era o efetivo que a polícia dispunha para colocar fazendo a segurança desta unidade aqui”, explica o secretário de Administração Penitenciária.

Criminosos usam fuzis para atirar contra policiais que estavam nas guaritas da Penitenciária de Piraquara durante 'resgate' de presos — Foto: Reprodução/TV Globo

Criminosos usam fuzis para atirar contra policiais que estavam nas guaritas da Penitenciária de Piraquara durante ‘resgate’ de presos — Foto: Reprodução/TV Globo

Uma outra imagem mostra presidiários serrando e arrombando cadeados de uma galeria diferente daquela em que ocorreu a explosão. Em seguida, eles cruzam uma das quadras de esporte.

Ao ser questionado sobre como as serras foram parar dentro das celas, o secretário de Administração Penitenciária explicou como o material acaba entrando escondido.

“Olha, os meios são os mais dissimulados, às vezes em roupas, muitas vezes no corpo de visitantes, de gestantes, muitas vezes de crianças, já é comum encontrar isso dentro de fraldas de filhos pequenos que acabam entrando na unidade”, disse.

Os presos escalaram uma parede com uma corda improvisada, chegaram até um mirante e desceram as escadas correndo rumo ao buraco aberto pela explosão no muro da unidade prisional.

Ao todo, o “resgate” dos presos demorou 15 minutos.

Quando a Polícia Civil e o reforço da PM chegaram, os 29 foragidos já estavam longe.

Os policiais tiveram dificuldade para chegar ao presídio, porque os acessos estavam bloqueados por carros e caminhões incendiados pela quadrilha.

Veículos foram incendiados em estradas que dão acesso a Penitenciária de Piraquara — Foto: RPC/Divulgação

Veículos foram incendiados em estradas que dão acesso a Penitenciária de Piraquara — Foto: RPC/Divulgação

A quadrilha

Câmeras de segurança de um posto de combustíveis mostram uma das equipes comprando gasolina um dia antes do ataque. Foram 300 litros.

Em mensagem de voz, uma das mulheres encarregadas da compra se espanta com o preço.

“Nossa! Deu 650 reais de combustível”, diz ela.

Para o delegado do Cope, a quadrilha comprou gasolina, e não roubou o combustível, para não chamar a atenção.

“É melhor não chamar a atenção até a hora da execução mesmo do crime”, afirmou Brown.

Toda a ação envolveu diferentes bandidos cumprindo diferentes tarefas, ainda de acordo com o delegado.

“Uns financiaram, outros planejaram, outros roubaram veículos, outros marginais tinham missões específicas para bloquear determinadas vias, ali no entorno do complexo penitenciário”, detalhou.

Na manhã do dia 11, ainda havia fumaça na estrada. Foram 12 pontos de bloqueio feitos pelos bandidos com veículos incendiados.

Investigação

Na fuga, os bandidos se esqueceram de levar os celulares que usavam ilegalmente na prisão.

“Nós localizamos muitas anotações, documentos, telefones celulares e provas periciais que deram sustentação ao início da investigação”, explicou o delegado do Cope.

Um dos celulares era de um chefe da quadrilha no presídio e estava cheio de arquivos de mensagens de voz.

“O plano de fuga foi organizado pelo alvo principal do resgate, que é o marginal conhecido como Daniel Estrela, e pela cúpula da facção criminosa que domina aqui no Paraná”, disse Brown.

Antes da fuga, Estrela cumpria pena de 42 anos e 10 meses por tráfico, furto e roubo.

Na véspera do resgate, ele trocou mensagens de voz com Manoel do Nascimento, o Coiote, que foi quem comandou o resgate.

“Ele é suspeito de crimes gravíssimos, inclusive do ataque à base da Prosegur no Paraguai… ele é suspeito da morte de um agente penitenciário no interior do estado também”, afirmou o delegado.

Em 2017, o ataque a uma empresa de transporte de valores, no Paraguai, teve a participação de 40 homens, que roubaram o equivalente a R$ 40 milhões.

Na mensagem, Coiote conta onde parte da equipe espera a hora de entrar em ação.

“Tem uns que está em hotel, tem uns que está no mato, tem uns que tá não sei pra onde…”, diz no áudio.

Sobre a entrada de celulares, o secretário afirmou que é impossível evitar a entrada desse tipo de equipamento nas celas.

“É impossível! Normalmente são microcelulares que você pode transportar em partes íntimas do corpo, que acabam escapando da revista que é feita” , informou o secretário de Administração Penitenciária.

A polícia descobriu que três chácaras também foram usadas pela quadrilha, antes e depois da fuga. Nelas foram encontradas mais provas, como mostra um vídeo feito por policiais.

“Muitas anotações… algumas coisas queimadas”, mostram os agentes.

Uma das anotações mostra um esboço da planta do presídio e mapeia onde carros incendiados iriam bloquear acessos.

“Com a análise desse material começamos a desenvolver um trabalho que durou cerca de três meses de investigação e conseguiu identificar 31 pessoas que participaram diretamente do planejamento e da execução do plano”, contou o delegado do Cope.

Para o delegado-titular do Cope, Rodrigo Brown, esse tipo de crime afeta todo o sistema de segurança.

“Esse tipo de crime ataca não só a penitenciária, mas ataca todo um sistema de segurança, uma vez que, no momento que a sociedade não consegue segregar mais os marginais perigosos do convívio social, nós estamos aí a mercê da bandidagem”, afirmou.

Prisões

No último dia 6, equipes do centro de operações policiais especiais, o cope, prenderam 28 pessoas, dentre elas 9 detentos que estavam foragidos. Um décimo morreu em confronto com a polícia.

Em Curitiba, os policiais encontraram um apartamento de luxo usado por Estrela ao longo da fuga. No imóvel tinha cocaína.

Coiote e Estrela acabaram sendo presos no litoral de São Paulo.

Ao todo, a polícia encontrou 40 kg de cocaína, 10 kg de crack, R$ 57 mil em dinheiro, munição, armas e coletes à prova de bala.

Veículos usados no resgate e na fuga também foram recuperados, um deles, com blindagem improvisada.

O que dizem os citados

Em nota, o advogado de Daniel Estrela e Manoel do Nascimento, o Coiote, diz que «os fatos serão enfrentados após o oferecimento da denúncia» e que “Manoel Nascimento irá se manifestar quando tiver conhecimento formal de todas as acusações».

A Polícia Militar do Paraná diz que está em andamento uma solicitação para a compra de fuzis, que serão destinados para o Batalhão da Polícia de Guarda, que protege o Complexo Penitenciário de Piraquara.

“O estado sempre está tentando estar na frente do crime, mas nem sempre isso acaba acontecendo, e quando acontece, acho que o que é mais importante para a sociedade é a atuação efetiva do estado na repressão, como acabou acontecendo em relação a esse fato”, disse o secretário de Administração Penitenciária Élio de Oliveira Manoel.

G1

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