“Como me tornei milionário trabalhando do meu quarto”

“Como me tornei milionário trabalhando do meu quarto”

Dinheiro não é tudo na vida, mas isso não impede que muitos de nós fantasiemos com ficar milionários e ser dono do próprio nariz no âmbito profissional. Alguns exemplos mostram que isso é possível, embora raro – sobretudo entre jovens.

Conheça a história de quatro britânicos que conseguiram chegar lá antes dos 40 anos – e administrando seus negócios dentro de seus quartos.

‘Sou minha própria chefe investindo em criptomoedas’

Erica Stanford, de 30 anos

“Nem sempre lidei bem com dinheiro. Na verdade, já fiquei endividada no passado, mas sempre gostei de aprender coisas novas. Acho que foi por isso que me interessei por criptomoedas. Foi no rádio, em 2009, que ouvi pela primeira vez sobre bitcoin, uma moeda digital criptografada, o que significa que qualquer um no mundo com uma conexão de internet e um smartphone pode enviá-la para qualquer lugar do mundo e de graça.

Na época, só falei do assunto com amigos e com meu pai.

No ano passado, porém, estava entediada no meu emprego de vendas e marketing e pesquisei sobre blockchain (uma base de dados global usada em criptomoedas) depois que meu amigo John começou a investir em bitcoin.

Quando li que você poderia usar isso para investigar se diamantes foram obtidos de forma ética, por exemplo, rastrear antiguidades roubadas e descobrir o histórico de carros de segunda mão, fiquei muito interessada. Achei fascinantes todas essas aplicações práticas.

Comprei cerca de 200 libras (R$ 1071) em bitcoins e outras criptomoedas. Comecei a mexer com isso e a comprar as mais baratas, investindo cerca de 2 mil libras com o cartão de crédito. Em poucos meses, tinha 30 mil libras, que eu coloquei na poupança e usei para pagar minhas dívidas. Lembro de ter pensado: ‘Uau, dá pra ganhar dinheiro de verdade – poderia pedir demissão e só fazer isso’.

Foi exatamente o que fiz em setembro de 2017. Passei a negociar criptomoedas em tempo integral. Algumas pessoas do trabalho me disseram que estava sendo estúpida e tive medo no meu último dia de trabalho, pensando se conseguiria me sustentar dessa forma, que ainda é algo relativamente novo. Meu chefe manteve meu posto de trabalho aberto para quando eu ‘inevitavelmente’ fracassasse. Isso me incomodou um pouco, mas também me fez tentar ser o mais bem-sucedida possível.

A bitcoin tinha uma má reputação de ser algo que pessoas usavam para comprar drogas e armas nos cantos mais obscuros da internet, mas, na minha opinião, é como dizer que há algo errado em usar dinheiro porque algumas pessoas compram coisas ilegais.

Meus amigos estavam preocupados, e meu pai falou que eu ia acabar morando na rua, especialmente porque eu tinha hipoteca e dívidas de cartão de crédito para pagar. E, sim, eu cometi erros no começo. O pior foi quando estava negociando uma moeda e ganhei 5 mil libras, mas a carteira digital em que isso estava foi colocada em ‘modo de manutenção’. Não pude sacar o dinheiro e o perdi. Foi péssimo, e podia ouvir na minha cabeça o meu chefe dizendo ‘eu te disse’.

É muito fácil perder dinheiro com criptomoedas, e eu não tinha me tocado que, se uma moeda se valoriza muito rápido, ela vai se desvalorizar muito rápido também. Passei a pesquisar mais sobre o assunto e tentar entender o mercado, identificar padrões e pensar em um próximo grande projeto para investir.

Nunca vou me esquecer de quando vi os números da minha carteira digital começarem a subir de verdade. Um dia, percebi que tinha chegado ao meu primeiro milhão, alguns meses depois de pedir demissão. Entrei em pânico. Não sabia o que fazer, se pegava meu dinheiro e saía correndo ou se reinvestia. Decidi manter a maior parte comigo, mas era como dinheiro do jogo Banco Imobiliário, não parecia ser real. Já tinha visto a volatilidade do mercado, então não saí gastando tudo ou contando para meus amigos.

Estava determinada a manter os pés no chão e a tratar isso como qualquer outro emprego. Pode parecer difícil de acreditar, mas minha vida não mudou muito, além de eu poder tirar férias mais longas. Não me leve a mal, mas me dá uma satisfação especial pagar uma viagem para a Tailândia usando bitcoin.

Me sinto solitária às vezes. Na maioria dos dias, somos apenas eu e meu gato. Mas amo ser minha própria chefe e, neste ano que passou desde que pedi demissão, John e eu unimos nossos recursos. Juntos, já faturamos mais de 20 milhões de libras. Pessoas já me pediram para investir seu dinheiro – de amigos a fundos -, mas não quero ter esse tipo de estresse ou pressão. Mas fico feliz em dar conselhos, e já me pediram para dar palestras sobre criptomoedas ao redor do mundo. Adoro ser conhecida por isso.”

‘Trabalhamos duro vendendo móveis online’

Monty George e Dan Beckles, ambos de 21 anos

Monty: “Sempre fui empreendedor. Aos 12 anos, eu comprava utensílios para fazer sushi e luzes para laptops e depois os vendia na internet. Aos 15, comprei um monte de mobiletes da China para vender online, mas depois me dei conta que não saberia o que fazer com elas se quebrassem. Depois, pensando sobre o que vender, ouvi que móveis eram um dos mercados que mais cresciam na internet, então encomendei alguns containers com mesas e cadeiras – e tudo foi vendido logo de cara.

Não acreditei na minha sorte, então, reinvesti o dinheiro em mais produtos e, a certa altura, chamei meu amigo Dan para entrar no negócio. Há três anos, quando tinha terminado a escola, a vendas chegaram a 1 milhão de libras.

Felizmente, meus pais sempre me apoiaram em minhas aventuras comerciais – e acho que herdei deles um forte senso de ética. Mas cometi erros pelo caminho. Em 2014, recebi uma cobrança enorme de impostos porque eu não havia me tocado de que tinha que pagar uma taxa sobre produtos e serviços. Então tive que vender alguns de meus pertences para conseguir dinheiro. Eu me senti um idiota, mas não deixei que isso me fizesse desistir.

Como abri o negócio enquanto vivia na casa dos meus pais, não tinha nenhuma despesa, e meus pais deixavam eu usar um barracão no seu terreno como depósito. Hoje, eu reinvisto os lucros na empresa e vivo de forma frugal. Dan e eu nos mudamos para uma casa compartilhada e estamos muito ocupados para gastar dinheiro demais.

Na maioria dos dias, eu estou de pé às 6h enviando e-mails para fornecedores na China, e, no resto do dia, me ocupo com uma série de coisas, como imprimir rótulos e falar com consumidores. No ano passado, me dei de presente um carro caro, mas o vendi depois de um ano. Pode parecer estranho, mas prefiro ter um carro mais simples que simplesmente me leve de um lugar para outro.

Não preciso esconder minha riqueza dos meus amigos, porque não me sinto rico. Só trabalho o tempo todo. Mas tenho orgulho de mim mesmo por ganhar tanto dinheiro com tão pouca idade – é algo que a gente vê nos filmes. Gosto de pensar que estou mostrando que estão erradas todas aquelas pessoas que dizem que a minha geração é preguiçosa.”

Dan: “Às vezes, não acredito que passei de não ter qualquer experiência no mercado de móveis para ser um dos administradores de uma companhia que vendeu 1,6 milhão de libras no ano passado. Monty e eu somos amigos desde os 13 anos. Depois da escola, eu planejava estudar Administração de Empresas e Economia na universidade, mas, quando Monty me disse para tirar um ano de folga e ajudá-lo a montar a Furniture Box, eu não pude recusar. Tive que adiar minha matrícula, mas acabamos tendo tanto sucesso que decidi não ir para a universidade.

Recebemos bons conselhos de amigos e parentes ao longo dos anos, como não relaxar quando as coisas estivessem indo bem. Temos quatro funcionários, mas ainda lidamos com todos os aspectos do negócio. Acho que lidar com os clientes é a parte de que gosto mais.

Podemos ser jovens milionários, mas já fizemos sacrifícios. Abrir mão da universidade foi um dos maiores, mas trabalhamos 365 dias por ano. Só vejo minha namorada uma vez por mês, porque trabalhamos todo final de semana. Lembro de um Ano-Novo em que todos os nossos amigos estavam se divertindo enquanto nós estávamos em um depósito congelante. Trabalhamos tão duro que nossas vidas sociais acabam prejudicadas, mas somos apaixonados pelo que fazemos. É incrível comandar um negócio de sucesso com um dos seus melhores amigos – acho que tenho muita sorte.”

‘Aprendi sozinha a programar e a ganhar dinheiro com redes sociais’

Laura Roeder, de 34 anos

“Se alguém me dissesse que, um dia, eu seria uma milionária da mídia social, eu diria que era piada. Aprendi sozinha a programar aos 12 anos para construir meu próprio site. Fui uma das primeiras a usar o Facebook quando ele foi lançado na minha universidade, mas nunca imaginei que ganharia muito dinheiro com isso.

Em 2007, quando tinha 22 anos, pedi demissão do meu emprego como designer gráfico para ser freelancer. Foi nesta época que o Twitter e o Facebook estavam decolando, e, quando fazia sites para pequenas empresas, eu as aconselhava sobre o que os clientes gostariam de ver e mostrava como podiam fazer com que mais pessoas entrassem nos sites. Pensava que todo mundo que construía sites fazia isso, mas não era assim, e mais pessoas começaram a me perguntar se eu aceitaria receber por esse tipo de serviço.

Sempre amei falar em público, então, comecei a fazer do meu quarto vídeos sobre marketing em redes sociais e a dar cursos online sobre como usar Facebook e Twitter para promover pequenos negócios. Foi tão bom que percebi que que poderia trabalhar menos e ganhar mais dinheiro – e meu faturamento foi de seis dígitos no primeiro ano. Foi também algo recompensador mentalmente – eu havia encontrado o que queria fazer da vida.

Mas meus pais e seus amigos não entendiam o que eu fazia. Minha mãe dizia para as pessoas que eu era escritora depois que eu publiquei um livro digital sobre marketing no Twitter. Eu ri muito disso, porque eu sabia que o mundo das mídias sociais era uma indústria relativamente nova.

Em 2013, investi o dinheiro que ganhei com meus cursos, cerca de 150 mil libras, na construção de um software, Meet Edgar, que ajuda freelancers e pequenos negócios a atualizar seus perfis em redes sociais automaticamente. Comecei com uma equipe de três pessoas e, hoje, tenho 25 funcionários, que trabalham remotamente, em suas casas e em cafés. Ainda que tenha atingido 1 milhão de libras de faturamento no primeiro ano, tudo foi reinvestido no negócio. No ano passado, faturamos 3,8 milhões, e transbordei de orgulho.

Começar uma empresa do seu quarto tem seus aspectos negativos. Tinha que me forçar a sair de casa para conviver com outras pessoas. Também já fui alvo de misoginia. Até recentemente, as pessoas não acreditavam que eu tinha um negócio por ser uma mulher, ou me perguntavam se meu marido ou meu pai estavam envolvidos. Algumas pessoas são céticas e dizem coisas como ‘não sei por que alguém compraria esse software’. Mas o sucesso foi algo que me deixou bastante confiante, porque eu sabia que eu estava diante de algo bom.

Às vezes, quando estou de férias em um safári ou tirando proveito do luxo de poder ter uma licença maternidade mais longa, não consigo acreditar que consegui esse estilo de vida graças às mídias sociais. Não acredito que estou fazendo algo que amo. Não é isso a verdadeira definição de sucesso?”

 

Fonte: BBC Brasil