A mulher, a intolerância e a guerra

Jornal do Brasil
LÍDICE LEÃO*
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A jovem está exausta, sentada no chão, abraçada aos próprios joelhos para que se sinta acolhida por alguém, nem que seja por ela mesma. Precisava de um gesto de carinho naqueles dias terríveis em meio à guerra. Mas sentia que o que se aproximava traria horror e violência. Vê as botas chegarem perto, torce para que passem direto. Mas os pés param diante dela. O que viria depois ela já sabia. Presenciara outras mulheres serem arrastadas sob gritos de terror. O sentimento é de pânico: seria estuprada.

Se fosse um filme, um corte brusco interromperia a cena. A sequência ficaria na imaginação de cada um. A revolta explodiria no peito de cada mulher: mesmo em tempos de empoderamento e conquistas, a força física masculina é e será sempre maior. E, em muitos casos, usada de forma atroz contra a mulher.

O relato acima é feito por Hagar, uma francesa de ascendência argelina nascida e criada em Marselha, a cidade mais árabe da França. Desde criança ela sente a diferença entre sua família e franceses descendentes de europeus. Hagar decide usar o estudo para atravessar o muro do preconceito e ser aceita pela comunidade considerada de primeira classe. Com o tempo, porém, percebe que essa travessia não é tão iluminada quanto a Cidade luz.

A personagem é ficcional, mas nem tanto. Antes de ser aprovada e ir para a faculdade em Paris, Hagar vive as dificuldades de ser muçulmana e estudar numa escola francesa; opta por não usar o véu islâmico na sala de aula, mas testemunha o preconceito de que são alvo as meninas que não abrem mão do acessório. Vê garotos da sua idade serem seduzidos pelo discurso islâmico radical. Hagar é a representação de muitas mulheres imigrantes, determinadas, com o sonho de ascensão, mas que carregam o peso da discriminação e do sentimento de não pertencimento. Depois de formada, vai trabalhar em uma multinacional e é enviada para coordenar investimentos milionários em uma fábrica na Síria. É lá que vive quando começa a guerra.

Hagar é a protagonista do livro “O caminho de Abraão – Fé, amor e guerra em travessias separadas pelo tempo”, primeira obra de ficção de um jornalista que é correspondente internacional há quase vinte anos e viajou a mais de setenta países. Sob a pele de um repórter que escolheu viver para contar histórias, Jamil Chade foi buscar repertório em acampamentos de refugiados na Europa, África e Oriente Médio, em trilhas de imigrantes, em depoimentos de criminosos, heróis e vítimas de guerra. A escolha de uma mulher como personagem central serviu para fortalecer o debate sobre direitos e identidade.

Hagar – cujo significado é imigrante – é o espelho dos riscos que o mundo inteiro corre no momento em que a Declaração dos Direitos Humanos completa setenta anos e todos os povos se sentem ameaçados pelo populismo, pela demagogia de muros e ilusões jihadistas.

Numa conversa rápida com o autor, ele afirma que o ponto central do livro é a insurreição das consciências. Não para pegar em armas, mas para passar a entender a complexidade do mundo e propor soluções reais. A violência, discriminação e sensação de não-pertencimento que assombram Hagar por toda a vida são as mesmas que perseguiram e mataram Marielle Franco, aqui ao lado. Ou alguém duvida dessa semelhança?

Há semelhança também entre a travessia de dores e refúgio de Hagar e o caminho traçado por Abraão, o pai das três principais religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. O livro será lançado em maio e é leitura obrigatória por escancarar feridas ainda abertas na sociedade e – com maior sangramento – nas mulheres: preconceito, ódio, intolerância. Sim, tem que haver uma solução para tudo isso.

* Jornalista