Fronteira

A perturbadora vida secreta de adoradores de Adolf Hitler

Três pessoas foram condenadas por integrarem o grupo Ação Nacional. Adam Thomas, de 22 anos, sua parceira Claudia Patatas, de 38, e Daniel Bogunovic, de 27, eram membros da organização neonazista de extrema direita que foi banida por leis de antiterrorismo após celebrar publicamente o assassinato da parlamentar trabalhista Jo Cox.

Thomas e Patatas foram condenados a seis anos e meio e cinco anos de prisão, respectivamente, e Bogunovic, a seis anos e quatro meses. Três outros homens que se declararam culpados anteriormente no mesmo caso também foram presos.

Conheça a seguir a história do Ação Nacional e a ameaça representada por seus membros.

Parecia ser uma casa normal.

A propriedade, em uma parte tranquila de Oxfordshire, no sudeste da Inglaterra, era ocupada por um casal que havia acabo de ter seu primeiro filho.

Os vizinhos os viam às vezes levando o bebê para passear em um carrinho. O homem, que costumava usar calça militar, trabalhava como segurança. A mulher – uma fotógrafa de casamentos nas horas vagas – trabalhava até recentemente em uma loja de roupas.

Mas, dentro de casa, Adam Thomas e sua parceira portuguesa, Claudia Patatas, criaram um mundo perturbador.

O quarto deles estava cheio de armas – facões, bestas, um machado sob a cama, um punhal de estilo nazista. No corredor, havia pendentes com um sol negro – um símbolo associado à SS, o braço paramilitar do partido nazista alemão – e a insígnia da Ku Klux Klan (KKK). Almofadas adornadas com suásticas decoravam a sala. Na cozinha, havia um cortador de massa em forma de suástica.

A geladeira estava adornada com um pôster do grupo neonazista Ação Nacional, banido pela legislação antiterrorismo britânica em dezembro de 2016, declarando que “a Grã-Bretanha é nossa – o resto deve ir embora”.

Um cartão de memória escondido sob o chão da sala de jantar continha várias fotografias surpreendentes do casal.

Em uma delas, Thomas segura a bandeira da Alemanha nazista enquanto Patatas embala seu bebê. Em outro, mãe e filho estão com um homem diferente, Darren Fletcher, que faz uma saudação nazista.

Outras imagens encontradas em um telefone celular mostram Thomas vestido com o distintivo traje branco da KKK, olhando para o filho através dos buracos de um capuz branco e pontudo.

O bebê, com pouco mais de um mês na época, recebeu o nome do meio Adolf de seus pais – em homenagem ao líder da Alemanha nazista.

As imagens foram encontradas por investigadores de contraterrorismo que chegaram à propriedade no início da manhã de 3 de janeiro deste ano para prender Thomas e Patatas por sua adesão ao Ação Nacional.

A origem do Ação Nacional

O Ação Nacional foi fundado em 2013 por Ben Raymond, hoje com 29 anos, e Alex Davies, hoje com 24.

Na época, Raymond, recém-formado em Política na Universidade de Essex e neonazista declarado, estava morando em Bognor Regis, no sul da Inglaterra. Depois da universidade, ele havia começado a trabalhar como vendedor de vidro e também dava expediente em um centro de empregos, auxiliando quem buscava trabalho.

Muito do seu tempo livre era gasto na internet, imerso em conteúdos perturbadores de extrema direita. Ele criou memes, editou vídeos e escreveu longos discursos, inclusive para o obscuro Partido Integralista, que buscava um “exército nacional fascista” em nome de uma “religião racial que inspira e exige o fanatismo”.

Foi essa atividade online que atraiu Davies, um estudante da Universidade de Warwick e membro do Partido Nacional Britânico. Até então, o partido estava em declínio acentuado em relação ao seu ótimo desempenho nas eleições europeias, quatro anos antes.

A dupla acreditava que, nos últimos anos, as organizações britânicas de extrema direita haviam diluído sua mensagem em busca de apoio além de suas bases. Os fundadores do Ação Nacional determinaram que, em contraste, o grupo seria abertamente racista e neonazista.

Tinha todas as características do neonazismo do pós-guerra – ódio aos povos não brancos e judeu, uma visão de mundo inteiramente baseada no racismo e a veneração dos “arianos brancos”, da era nazista e de seus piores criminosos de guerra.

Davies acabou sendo expulso da Universidade de Warwick por suas atividades políticas de extrema-direita e, no País de Gales, encontrou trabalho como vendedor de seguros.

A dupla acreditava que os jovens de todo o Reino Unido abraçariam a mistura tóxica do grupo de adoração a Hitler, negação do Holocausto e teorias de conspiração.

Na realidade, nunca chegou a ter mais de cem membros, e aqueles que atraíam formavam um conjunto de fanáticos unidos por ódios irracionais.

Nenhuma tentativa foi feita em se engajar na política democrática, com a organização se considerando um movimento de rua baseado na juventude. Seu logotipo era semelhante ao da SS.

O recrutamento era focado em adolescentes e jovens de 20 e poucos anos, embora alguns dos alvos também fossem crianças.

A estratégia do grupo envolveu inicialmente a panfletagem em campi universitários. Mas logo passou a fazer campanhas publicitárias agressivas e manifestações no centro da cidade, com atividades propagandeadas no site do grupo e nas redes sociais.

À medida que crescia, o Ação Nacional transformou-se em uma rede clandestina de pequenos grupos regionais, com membros cooperando nacionalmente.

‘Nós somos a jihad branca’

Mapa regional do Ação Nacional
Image captionO Ação Nacional era formado por uma rede clandestina de pequenos grupos regionais, com membros cooperando nacionalmente

Os membros, que se vestiam de preto durante as manifestações, promoviam a ideia de que o Reino Unido estava à beira de uma “guerra racial” e que uma elite predatória estava deliberadamente incentivando a imigração na tentativa de destruir a população branca nativa.

O grupo alegava ser patriota, mas era hostil a todas as instituições domésticas, ao Estado de direito, ao processo democrático e a todos que não compartilhavam de sua visão de mundo. Políticos e funcionários públicos eram um alvo especial de seu ódio.

Durante um discurso, Matthew Hankinson, membro sênior da Ação Nacional, disse que eles garantiriam que os “traidores” acabariam “pendurados nos postes de luz”. “Devemos ser implacáveis – e, se pessoas inocentes forem eliminadas neste processo, então, que assim seja”, afirmou ele.

A organização era abertamente genocida e disse que todos os judeus e não brancos teriam de ser eliminados. Em um documento, declarou: “É com alegria que vamos aprovar a solução final em toda a Europa”.

Mas o Ação Nacional não se restringiu à admiração pelos nazistas. Seus membros também se inspiraram no Khmer Vermelho, o regime brutal que governou o Camboja no final dos anos 1970 sob o líder marxista Pol Pot; no terrorista norueguês de extrema direita e assassino em massa Anders Breivik; e até mesmo no grupo extremista autodeclarado Estado Islâmico.

Pela internet, o grupo anunciou: “Nós somos a jihad branca” e “Nosso lema é ‘Longa Vida à Morte!’, porque somente aqueles que estão dispostos a morrer por suas crenças estão verdadeiramente vivos”.

A lógica de tais ideias levou à violência. Em 2015, Zack Davies, um membro de 25 anos de idade, usou um martelo e um facão para atacar um dentista sikh, uma religião indiana, em um supermercado por causa da cor de sua pele.

Davies gritou: “Poder branco!” durante o ataque, pelo qual ele foi posteriormente condenado por tentativa de homicídio. Ele havia posado para uma selfie em frente a uma bandeira do Ação Nacional enquanto segurava uma faca.

No ano seguinte, Jack Coulson, um membro de 17 anos de idade, foi preso pela polícia de contraterrorismo depois de postar imagens de um canhão caseiro na rede Snapchat, junto com ameaças a muçulmanos.

Coulson, que seria condenado por fabricar explosivos, havia se juntado ao Ação Nacional meses antes e estava se comunicando com membros mais velhos tanto pessoalmente como pela internet.

No dia em que a deputada trabalhista Jo Cox foi assassinada pelo supremacista branco Thomas Mair, em junho de 2016, o adolescente publicou em uma rede social: “Há menos uma traidora da raça na Grã-Bretanha graças a este homem”.

“Ele é um herói, precisamos de mais pessoas como ele para matar os traidores da raça”, continuou Coulson.

Uma conta oficial do Ação Nacional no Twitter também celebrou o assassinato, afirmando: “Não deixe que o sacrifício deste homem seja em vão” e “Faltam só 649 deputados #JihadBranca”.

Estrutura, disciplina e rigor

Em 2016, Christopher Lythgoe liderava todo o grupo. Raymond e Davies continuaram sendo figuras influentes, mas foi Lythgoe, hoje com 32 anos, que procurou impor estrutura e rigor à organização.

Ele morava com os pais em Warrington, no noroeste da Inglaterra, e trabalhava intermitentemente em armazéns. Gastava muito do seu tempo tentando transformar o Ação Nacional em uma organização paramilitar. Elaborou manuais detalhados, explicando coisas como a forma correta de carregar bandeiras e enviando mensagens intimidando outros membros.

Em uma delas, ele escreveu: “Apenas um lembrete de que todos devem treinar para o caso de precisarmos. Não levamos ninguém nas costas. Sem exceções”.

Ele acrescentou: “Imagine como será quando tivermos 20, 30, 50 ou mais caras que possam deixar alguém inconsciente com um soco. Vamos lutar como um grupo disciplinado. Isso é o que eu chamaria de uma unidade formidável. Então, como eu disse, todos nós treinamos”.

O treinamento incluía boxe, artes marciais e uma série de exercícios ao ar livre em acampamentos. Em um destes campos, os participantes deveriam “beber hidromel e viver como vikings”. Um neonazista chegou a dormir em uma cabine telefônica para escapar da chuva e da neve.

Mas não é necessário levar a sério as fantasias paramilitares do grupo para considerá-las preocupantes e perigosas.

A ameaça representada pelo Ação Nacional veio do ódio que encorajou, o que gerou uma ameaça bastante real para o público em geral e para qualquer pessoa escolhida como alvo por aqueles que radicalizou.

Uma avaliação do governo no final de 2016 concluiu que o grupo estava “envolvido com terrorismo” e o descreveu como “amplamente racista, antissemita e homofóbico”. Tornou-se o primeiro grupo de extrema direita a ser banido no país desde a Segunda Guerra Mundial.

A medida que tornou um crime a adesão ao Ação Nacional estava especificamente relacionada à sua glorificação do terrorismo e da violência extrema.

Antes da proibição, a liderança do grupo se reuniu em uma conferência telefônica segura, incluindo Lythgoe, os fundadores Raymond e Davies e organizadores regionais.

Lythgoe insistiu que o grupo continuasse a atuar como de costume – apenas sem o nome ou ações públicas mais óbvias. Nos dias anteriores à proibição, ele enviou aos seus seguidores uma série de emails. “Seguimos em frente como temos feito”, afirmou.

Em outro, enviado aos líderes regionais, disse: “Certifiquem-se de manter contato com todos os membros. Assegurem a eles que ficarão bem, desde que não promovam o Ação Nacional a partir de sexta-feira. Certifiquem-se de que eles entendam que a essência do Ação Nacional é o povo, nossas habilidades, nossos laços, nossas ideias e nossa força de vontade. Tudo isso continuará. Estamos apenas mudando de pele. Todos os movimentos genuinamente revolucionários do passado precisaram existir cladestinamente em alguma medida. Estes são tempos excitantes”.

Em busca de uma guerra racial

Um dos participantes da lista de discussão de Lythgoe era Alex Deakin, líder da região central da Inglaterra, conhecida como Midlands.

Menos de duas horas depois de receber o email, Deakin criou no aplicativo de mensagens Telegram um grupo que se tornou a principal ferramenta de organização regional para a Ação Nacional depois da proibição. Ele batizou o grupo de Triple KKK Mafia, uma referência à Ku Klux Klan. Com o tempo, o grupo chegaria a 21 membros.

Deakin criou ainda outro grupo, chamado Inner, que reunia um número seleto de participantes do grupo maior.

Deakin, hoje com 24 anos, era um estudante universitário de Birmingham que se radicalizou por meio da internet.

Em setembro de 2016, depois de passar dois anos estudando na Universidade de Aberystwyth, no País de Gales, ele desistiu e foi transferido para um curso de história na Universidade de Coventry, na Inglaterra.

Ele disse a um contato que foi levado até o Ação Nacional após “participar intensamente de fóruns, passar anos discutindo na internet e, finalmente, decidir entrar em ação quando o grupo me impressionou”.

Deakin se reportava regularmente a Lythgoe e a Raymond, contando-lhes sobre seus esforços para recrutar novos membros, organizar os existentes e disseminar a propaganda do Ação Nacional.

Mensagens no ano anterior à proibição do grupo mostram a extensão de suas ambições. Em uma troca sobre a segmentação das cidades da classe trabalhadora, ele escreveu: “Devemos mudar para radicalizar essas áreas, transformá-las em guetos sectários no estilo da Irlanda do Norte seria o primeiro passo para fomentar uma guerra racial”.

Para Lythgoe, Deakin declarou: “Como o IRA e o Viet Cong, precisaríamos ter um apoio entre as comunidades em meio às quais lutaríamos; ruas e becos sem saída funcionariam como abrigos oferecidos por apoiadores locais, e seria necessário sermos capazes de ocultar nossa presença em instantes”. Estas conversas só se intensificaram quando o grupo foi banido.

Em Midlands, a organização interrompeu suas campanhas, mas os membros continuaram a se comunicar, a encontrar-se, a procurar novos recrutas e a encorajar as piores tendências uns dos outros.

Havia referências explícitas ao fato de que o Ação Nacional ainda existia. Em uma mensagem, Deakin disse: “De qualquer forma, o grupo de Midlands continua sob o nome Triple KKK Mafia”.

Em outro, Adam Thomas escreveu: “Assim, desde que o Ação Nacional foi destruído, a liderança em geral concordou que ele seria desfeito. Nenhuma tentativa de revivê-lo. Mas o grupo de Midlands, que são apenas 17-20 de nós, decidiu ignorar isso… Midlands continuará a luta sozinho”.

Mensagens no grupo do Telegram mostram membros usando linguagem racista e violenta, discutindo seu desejo de uma “guerra racial” e fantasiando sobre o assassinato daqueles que odiavam.

Deakin escreveu que todo o povo judeu deveria ser “queimado” e que os chineses e negros deveriam ser transformados em “biocombustível”.

Um membro, Darren Fletcher, de 28 anos, referiu-se a Thomas Mair, o assassino de Jo Cox, quando perguntou: “Por que não há mais Mairs? Precisamos de algumas centenas deles para eliminar estes deputados antibrancos”.

Fletcher, um motorista de caminhão e velho amigo de Adam Thomas, já havia sido preso depois de postar vídeos no YouTube de si mesmo no palco de um evento de música extremista vestido com uma roupa da KKK segurando uma boneca negra.

Quando Fletcher escreveu que as pessoas no governo deveriam ser mortas, ele recebeu apoio de Thomas, que disse: “Concordo, mas há 600 deputados, a menos que você acabe com eles de uma só vez, outros os substituirão”.

‘Não há paz para os ímpios’

Claudia Patatas, que havia estudado até o nível de pós-graduação em Portugal antes de se mudar para o Reino Unido há mais de uma década, passou anos como profissional de marketing. Em público, fornecia declarações sem graça para revistas corporativas, enquanto em sua vida privada escrevia mensagens exclamando: “Todos os judeus devem ser mortos” e “Tragam de volta os campos de concentração”.

Ela disse aos membros do grupo que “Adolf é vida” e estava entusiasmada com a realização de uma festa para o aniversário de Hitler, lembrando uma que havia frequentado em Lisboa anos antes.

“Nós tínhamos um bolo com o rosto do führer”, ela disse, antes de acrescentar: “Foi difícil para mim cortar o rosto dele”.

Talvez o membro mais perigoso do grupo fosse um cabo do Exército britânico. Mikko Vehvilainen, hoje com 34 anos, ingressou no Exército em 2012, tendo anteriormente passado pela Marinha da Finlândia, terra natal de seu pai. Em um email para um amigo, escreveu: “Estou apenas aprendendo habilidades de combate úteis”.

Casado e pai de crianças pequenas, ele era adepto de uma interpretação supremacista racial do cristianismo chamada Identidade Cristã e um membro sênior do Ação Nacional obcecado com ideias sobre o colapso da civilização e uma guerra racial.

Em um texto de seu diário do ano passado, sob o título “pontos-chave para a reunião da liderança”, ele se referiu a “fases posteriores do terrorismo, desordem civil, destruição de infraestrutura e da rede elétrica”.

Em outro documento, ele disse que havia a necessidade de se estar “preparado para lutar e morrer por sua raça em uma possível última resistência por nossa sobrevivência”.

“Cada parte de mim deseja uma guerra. Não há outro caminho”, escreveu em uma mensagem no Telegram.

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