Economia

Por que o Brasil precisa dar atenção ao Paraguai?

O investimento direto feito pelo Brasil no Paraguai mais do que quadruplicou entre 2007 e 2014, alcançando US$ 641 milhões
Pobre, quente e prensado entre gigantes, é fácil não reparar no Paraguai. O país sem litoral continua manchado por sua reputação de paraíso do contrabando e lar do falecido Alfredo Stroessner, o generalíssimo que comandou uma das piores ditaduras da América Latina por 35 anos.

E, no entanto, os benefícios capitalistas, as despesas gerais baratas e um novo entusiasmo pela democracia baseada em regras transformaram a área atravessada por trópicos que equivale a apenas 0,05 por cento da economia mundial em um dos locais mais favoráveis para os negócios e de crescimento mais rápido da América Latina. O FMI projeta que o Paraguai crescerá 3,8 por cento no próximo ano, em uma região que só deve crescer 0,8 por cento.

Os brasileiros prestaram atenção: à medida que a própria economia desfalece, eles estão se voltando ao diminuto vizinho como fonte de uma fabricação de baixo custo. Talvez fosse melhor tomar a ascensão do vizinho como inspiração para as reformas tão necessárias em casa.

O investimento direto feito pelo Brasil no Paraguai mais do que quadruplicou entre 2007 e 2014, alcançando US$ 641 milhões. Por sua vez, o investimento bilateral aumentou 276 por cento na última década. Quarenta e duas empresas brasileiras, de setores como calçados e peças automotivas, se estabeleceram no Paraguai no ano passado e outras 400 mandaram missões de sondagem de desde 2014.

A ascensão do Paraguai é notável em uma região onde há poucos anos o Brasil ficava com todo o encanto. Agora, a economia brasileira provavelmente deve contrair 3 por cento neste ano e mais 1 por cento em 2016. O investimento estrangeiro direto vem diminuindo desde 2011 e o Brasil caiu 18 posições – mais do que qualquer outro país – até o 75º lugar no mais recente ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, que abrange 140 países.

A desaceleração na China e a crise mundial das commodities podem levar parte da culpa pelas dificuldades do país, mas os infortúnios domésticos também devem ser responsabilizados, como os gastos públicos não verificados e uma pesada burocracia, que custam muito aos contribuintes, sufocam a iniciativa privada e dão as boas-vindas aos subornos. De fato, um amplo escândalo de corrupção prejudicou as obras públicas.

Ao contrário do Brasil, o pequeno Paraguai decidiu que precisava buscar ajuda para crescer. As inclinações do país ao mercado livre remontam aos dias em que Stroessner estava no poder (1954-1989), quando o ditador trabalhou para proteger o Paraguai do comunismo e deixar suas fronteiras abertas aos amigos com recursos. Produtores brasileiros de grãos responderam ao chamado nos anos 1970 e esses ‘Brasiguaios’ – como são conhecidos os migrantes – transformaram o país adotado no quarto maior exportador de soja do mundo.

Ávido por subir na escala de valor, o Paraguai reescreveu suas regras para a indústria em 1997 e passou a oferecer incentivos a companhias estrangeiras dispostas a montar fábricas de produtos de qualidade inferior para o mercado mundial. Os investidores hesitaram inicialmente, dada a propensão do país à turbulência política; o impeachment que derrubou o presidente Fernando Lugo em 2012 não ajudou.

Surgiu então Horacio Cartes, magnata do tabaco que foi eleito presidente em 2013 com a promessa de transformar o Paraguai em uma democracia estável com uma economia otimizada. Cartes assinou uma lei de responsabilidade fiscal para manter a dívida do governo sob controle. Antes de ser eleito presidente, Cartes também tinha apoiado um projeto de lei que aprovava um imposto de renda (o Paraguai nunca tinha tido um) para pagar serviços públicos e controlar uma economia amplamente desregulada, que alimentava o contrabando e a corrupção.

Resultado: o Paraguai ocupa uma posição mais elevada que o Brasil na escala do Banco Mundial de facilidade para fazer negócios. Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria do Brasil descobriu que a mão de obra é 21 por cento mais barata no Paraguai e a eletricidade, 64 por cento mais barata. O investimento estrangeiro direto no Paraguai cresceu 230 por cento entre 2013 e 2014, na comparação com uma queda de 2 por cento no Brasil. (Na verdade, o Paraguai se destaca em uma região onde esse tipo de investimento caiu 16 por cento em 2014 e provavelmente se contrairá 10 por cento neste ano).

O Brasil deveria aproveitar o exemplo de prosperidade do país vizinho. Em uma economia global mais lenta, a disputa pelo capital será acirrada e os investidores provavelmente irão aonde os obstáculos forem menos desanimadores. O Paraguai mostrou que está aberto aos negócios. O Brasil, atolado em uma recessão, sem dinheiro e com uma infraestrutura decadente, deveria fazer a mesma coisa.

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