Brasil

O que se deve esperar agora no caso Cunha

(*) Carlos Fernandes

Com a abertura dos trabalhos na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados e nomeado o relator que irá conduzir o parecer que será apreciado pelos seus pares, foi dada a largada, oficialmente, para o processo que definirá o futuro do cidadão que já entrou para a história da casa mais importante da república como o seu pior e mais irresponsável presidente. E isso é realmente um feito difícil de se alcançar.

Eduardo Cunha, em apenas meses de atuação como a terceira pessoa na hierarquia democrática do país, conseguiu fazer com que retrocedêssemos décadas em assuntos de extrema importância social, econômica e política; articulou das formas mais desonestas possíveis, medidas que beneficiavam diretamente os seus patrocinadores; desrespeitou como jamais visto, as regras e rituais estabelecidos pelos regulamentos internos em prol de seus interesses particulares e afrontou perigosamente a independência e a harmonia existente entre os três poderes.

Desde a época do caricato Severino Cavalcante, que chegou à presidência da Câmara em fevereiro de 2005 e teve que renunciar pouco tempo depois por envolvimento em cobrança de propinas, não víamos alguém tão desqualificado moralmente à frente de uma instituição de tamanha importância. Severino deve estar se regozijando por ter encontrado alguém mais despreparado para o cargo que ele próprio. Numa entrevista dada em setembro deste ano, o ilustre declarou, triunfante, que a Câmara dos Deputados sob a liderança de Cunha, “piorou muito”. Seria cômico se não fosse trágico.

O fato é que Cunha, no alto da sua arrogância, não poderá mais seguir os passos de Severino, renunciando ao mandato para não perder os direitos políticos uma vez que o inquérito já foi instaurado. A partir daqui, a julgar pelas acusações que pesam contra ele e pela materialidade das provas que se juntaram, segue-se um caminho sem volta que se inicia na sua merecida expulsão do parlamento brasileiro e vai dar em sua entrada apoteótica na cela do presídio mais próximo.

Evidente que isso seria garantido se contássemos com um sistema judicial realmente justo, se o Congresso Nacional não fosse povoado em grande parte por seres alheios à moral e à ética e se não possuíssemos uma arquitetura política que permite tantos conluios. Se por um lado o presidente da Comissão de Ética, José Carlos Araújo (PSD-BA), é um antigo desafeto de Eduardo Cunha, por outro, o relator, Fausto Pinato (PRB-SP), pertence a um dos partidos que ainda dão um suporte vergonhoso à permanência de Cunha na presidência.

O líder da bancada do partido, Celso Russomanno (PRB-SP), que não é exatamente um político conhecido por sua coerência e atuação, disse, em nota, que não irá haver nenhuma pressão sobre o relator. Sobre o fato do seu partido ter apoiado em massa a candidatura de Eduardo Cunha, disse, também em nota, que “naquela ocasião as denúncias agora trazidas à tona não eram conhecidas”. A inocência de Russomanno e de seu partido é comovente.

Seja como for, a relatoria do processo está definitivamente nas mãos de um parlamentar de primeira investidura e que só foi eleito graças à votação expressiva e sem sentido do próprio Russomanno que o levou à tira-colo. Não deixa de ser uma enorme oportunidade para que esse rapaz faça honrar os exatos 22.097 votos que conseguiu amealhar no maior colégio eleitoral do país.

A cassação do mandato de Eduardo Cunha é algo que se impõe sob todos os aspectos. Esse cidadão, sozinho, ridicularizou a Constituição Federal Brasileira, envergonhou todos os cristãos que, de boa-fé, lhes deram a sua confiança, trabalhou diuturnamente para a piora do cenário político e econômico do país, compactuou com o que de mais imoral pode existir na política e elevou a sua ganância e prepotência a um patamar superior ao da própria nação.

Como se não bastasse, a defesa que ele e seus advogados se propuseram a fazer para esclarecer as denúncias gravíssimas que se acumulam dia após dia é, seguramente, uma das maiores demonstrações de desrespeito a seus julgadores e principalmente aos cidadãos brasileiros. Atribuir milhões de dólares a pagamentos de empréstimos que ele nem se lembra a depósitos efetuados por “inimigos” e à venda de carne moída é chamar a todos de palhaço.

Se a justiça e a razão forem atendidas, Eduardo Cunha será escorraçado da vida pública, Fausto Pinato terá mostrado o seu valor e teremos virado uma das páginas mais ridículas da história do Congresso Nacional.

(*) Economista com MBA na PUC-Rio, Carlos Fernandes trabalha na direção geral de uma das maiores instituições financeiras da América Latina.
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