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“Não é vida real”: a lição da modelo que abandonou as redes sociais

(*) Marcos Sacramento

Até uma semana atrás, Essena O’Neill era só mais uma daquelas pessoas que vivem de se exibir nas redes sociais. Com mais de 570 mil seguidores no Instagram, a modelo australiana de 18 anos virou notícia fora do mundinho dourado das redes sociais. O motivo não foi uma “belfie” (selfie da bunda) ou algum escândalo sexual, e sim a decisão de mudar de lado e abandonar a lucrativa carreira virtual.

Depois de deletar mais de 2 mil fotos que havia compartilhado no Instagram e mudar as legendas de algumas restantes, colocando comentários onde revelava as manipulações nas imagens e as dezenas de tentativas necessárias para obter a foto perfeita, ela saiu de vez das redes onde costumava brilhar. Antes ela chegava a ganhar 1 300 euros por post no Instagram.

A ruptura resultou em um vídeo com pouco mais de 17 minutos, onde ela fala das ilusões que ajudou a construir compartilhando uma vida de veleidades e das angústias que sentiu por causa disso tudo. Com lágrimas nos olhos, ela incita as pessoas a dedicarem menos tempo às redes sociais em troca de experiências reais.

“Recebi US$ 400 para postar esse vestido. Isso quando eu tinha, talvez, 150 mil seguidores. Com 500 mil seguidores, eu sei de muitas marcas que pagam até US$ 2 000 por postagem”, revelou.

Há quem desconfie de O’Neill e a acuse de estar blefando, insinuando que ela ganhou mais visibilidade nos últimos dias e que a decisão de sair do jogo de ostentação na web não passaria de teatro maquiavélico. Quem sustenta esta teoria são as gêmeas Nina e Randa, cantoras, youtubers e até pouquíssimo tempo amigas de O’Neill.

Se for ou não jogo de cena, a verdade logo irá aparecer. Inclusive, no seu discurso a blogueira admite importância das redes sociais de difundir conhecimento e até pede contribuições financeiras para tocar o novo projeto de um site voltado para ideias veganas e de crescimento pessoal.

Por mais que a história tenha ganhado contornos de intriga entre adolescentes, não há como negar que o manifesto de O’Neill faz sentido em um mundo cada vez imerso e dependente das postagens, curtidas e compartilhamentos do Instagram, Facebook, Twitter e demais plataformas de mídia social.

Segundo uma pesquisa da Universidade do Missouri, o Facebook pode provocar sentimentos de inveja e até desencadear depressão em alguns usuários, expostos a postagens de viagens de férias, jantares em restaurantes caros ou até flagrantes de relacionamentos felizes.

Uma análise divulgada no site Slate foi além e sugeriu que o Instagram supera o Facebook como catalisador de inveja e outros sentimentos venenosos. O motivo, segundo o artigo, deve-se à ênfase nas imagens em detrimento dos textos, diferente do Facebook ou do Twitter, onde é possível compartilhar pensamentos e notícias. “Ninguém inveja uma notícia jornalística”, lembrou a pesquisadora Hanna Krasnova, da Humboldt University Berlin, em entrevista à Slate.

Em uma palestra que viralizou na internet, o historiador e professor da Unicamp Leandro Karnal resumiu com perspicácia o modo como grande parte das pessoas se relaciona com as redes sociais. “Eu acredito que nós estamos gritando desesperadamente para sermos observados, eu acredito que nós nos sentimos muito solitários (…). As pessoas estão dando opinião sobre tudo e esse é um bom exercício, a minha pergunta é se alguém está ouvindo a opinião alheia”.

Gente ouvindo a opinião alheia existe sim, mas há mais pessoas dispostas curtir a foto de beldades bebendo Whey Protein e comentar que aquilo é “top” do que interessadas em refletir sobre a afirmação de O’Neill de que “rede social não é vida real”.

(*) Capixaba de Vitória, é jornalista. Goleiro mediano no tempo da faculdade, só piorou desde então. Orgulha-se de não saber bater pandeiro nem palmas para programas de TV ruins.

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