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Há 15 anos, fã prepara jantar para Roberto Carlos; ele nunca foi

Há 15 anos, fã prepara jantar para Roberto Carlos; ele nunca foi

Nos anos 1970, em um dos únicos comércios da cidade mineira de Timóteo (a 200 Km de Belo Horizonte), apenas duas vozes se revezavam no som que vinha da padaria: a de Roberto Carlos, com os versos “Eu sou terrível…”, “Eu prefiro as curvas da estrada de Santos…” e “Meu pequeno Cachoeiro, vivo só pensando em ti…”, e Raul Seixas, com sua “Metamorfose Ambulante”.

Desde então, tanto o amor quanto o desassossego com uma eventual morte do “rei” foram despertados em Simone Oliveira, 56 anos. Na casa dela, o marido e os três filhos já sabem: Natal, aniversário dos familiares e do Roberto Carlos são datas sagradas, assim como a cor marrom é proibida. Há 15 anos, anualmente, a dona de casa organiza jantares para o ídolo. Nenhum membro da família está autorizado a se ausentar no dia. “Eles já sabem”, reforça.

“Gosto tanto dele que não tinha por que não festejar seu aniversário. Acho importantes as datas comemorativas. Tenho certeza que ele sabe que aqui [casa] acontece uma homenagem. A alma dele está aqui. Sinto realmente que estou cozinhando para ele”, afirma a fã, que gasta em média R$ 500 por jantar e disponibiliza ao menos duas opções de pratos no cardápio, que ela acredita serem do agrado de Roberto. “Li uma vez em uma revista que ele era apaixonado por uma carne assada que a Lady Laura [mãe do cantor] fazia.”

O convite para o evento, que costuma reunir até dez pessoas, é disputado entre os vizinhos do conjunto habitacional Cohab 1 do bairro de Artur Alvim, zona leste de São Paulo, mas apenas os “mais íntimos” são chamados.

Apesar de ter dois espaços externos em seu sobrado, Simone faz questão que a comemoração regada a vinho e sob os olhares de Roberto Carlos estampado na parede ocorra em sua pequena sala de jantar, com as melhores louças e talheres. “É mais à altura dele. Não dá para ser na garagem como acontece com as outras [referindo-se às festas de familiares e, inclusive, seu aniversário]. Por isso, a cada ano convido um pessoal para alternar”, explica.

Moradores do bairro comprovam a repercussão da solenidade. “A rua inteira sabe disso, não pode nem ir de chinelo”, conta aos risos a vizinha de muro Valquíria, que ainda não teve a honra de ser convocada para o “jantar do rei”.

Com lugar reservado na celebração, Regina Biazotto confessa que de início estranhava a atitude da amiga. “Achava esquisito ter um jantar para um cantor cozinhar até o que o homem gosta de comer, e ele não aparecer. E você tem que ir bem arrumado, de salto”, diz a dona de casa enquanto relembra o último deles: “Comi tanto, estava tão gostoso”.

Para o filho Wilian, os jantares não tem a ver com fanatismo, mas com um “hobby”, um “capricho” da mãe já enraizado nos costumes dos Oliveiras. “No início, a gente achou que era brincadeira, mas depois ela passou a tratar como se o Roberto estivesse aqui. Então, colocamos a melhor roupa, de preferência azul e branco, e comemos, comemoramos igual no Natal, no aniversário do meu pai, dos meus irmãos. Sabemos até as letras das músicas”.

Poupança do último adeus

Se a vida de Roberto Carlos já merece ser celebrada, a morte do ídolo também faz parte dos planos de Simone. Quando o dia chegar, ela, parentes e amigos já projetam como irão se revezar na fila (comum em eventos de grande repercussão) destinada aos fãs. Habituada com planejamentos, ela cita sua “maior preocupação”: não ter uma reserva para custear os gastos com passagens, alimentação e hospedagem.

Já que o óbito é tratado como fato, o local do enterro também é certo. “Acho que será tudo no Rio de Janeiro”, diz.

Casada há 32 anos, a mineira se orgulha ao falar das economias e do orçamento doméstico sadio que ela e Manoel mantêm. No entanto, deixa claro que apenas um motivo a faria se divorciar: “não ter uma reservinha”. “Nem sempre posso ir aos shows, mas se acontecer algo com o rei, quero estar lá. Se não tiver dinheiro guardado e ele se negar a pedir empréstimos, juro para você, me separo. É a única coisa que me preocupa”, afirma.

“Não é que eu me prepare. Tenho medo de viver isso. Se pudesse escolher, preferiria ir antes, mas também não quero ser pega desprevenida. É uma coisa da idade, né? O ser humano morre. A vida inteira sonhei em conhecer o Roberto. Se não conseguir, neste momento de tristeza quero estar lá perto”, justifica.

Enquanto o fatídico dia não chega, a fã segue com suas superstições que vão desde de pintar as paredes da casa para eventos que envolvem o músico até assistir aos shows pela TV em silêncio. Assim como os jantares de aniversário, as apresentações de fim de ano do cantor também seguem um ritual especial. “Fico só esperando a Globo anunciar para eu ver a roupa que ele está vestindo. Aí, eu compro a minha na mesma cor. Tem que combinar. É um amor de alma”, afirma ela, que mantém religiosamente o hábito de adquirir peças, incluindo lingeries, novas duas vezes ao ano –abril e dezembro, meses dos eventos.

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