Fronteira

A proibição é a verdadeira ‘porta de entrada para as drogas’

Os responsáveis pela guerra contra as drogas afirmam que a maconha é a “porta de entrada para as drogas”. Pelo contrário: é a política de proibição das drogas — não as drogas em si — que cria a porta de entrada para o submundo do crime e dos produtos contaminados.

Isso ficou claro em um estudo recente que mostrou a correlação de proibição de álcool e uso de metaanfetaminas por condado. Quando as pessoas buscam uma substância proibida, a única alternativa é procurar os criminosos que podem fornecê-la. Essa entrada no mundo do crime se torna a porta de entrada para outras atividades e substâncias ilegais – muitas vez mais perigosas.

Procurar o submundo do crime significa que cidadãos de bem, que cumprem as leis, ultrapassam a fronteira entre o que é legal e ilegal. Além de promover um desrespeito geral pelas leis, isso dá aos compradores um certo nível de conforto no mundo fora-da-lei.

Organizações criminosas não têm por que conferir documentos de identidade. Por que teriam? Vender para menores de idade não é mais ilegal que vender para adultos.

Os criminosos também não têm motivos pelos quais garantir pureza nem indicar a potência das drogas. Para quê? Seja a heroína pura ou cortada com Fentanyl, ela é igualmente ilegal.

O consumidor que compra um produto adulterado não tem a quem recorrer – na verdade, ele pode acabar morrendo. Os sobreviventes não podem recorrer à FDA, agência do governo americano que regulamenta remédios, nem às organizações de defesa dos direitos do consumidor. Os traficantes que vendem produtos de má qualidade não sofrem nenhum tipo de penalidade.

Uma vez na “loja”, o vendedor tem todo o interesse em empurrar produtos cuja margem de lucro é maior. Quem vai a uma concessionária Honda procurando um Civic pode ser convencido por um vendedor racional a dar uma olhada num Accord. Quem quer comprar maconha pode ser encorajado a experimentar heroína ou cocaína ou metaanfetaminas.

No mundo do crime, simplesmente não existe a conversa sobre os riscos da maconha para cérebros em desenvolvimento ou os riscos da heroína para todo mundo. Esses esforços educativos só ocorrerão num ambiente legalizado e regulamentado.

Na teoria, é claro, as pessoas podem se proteger: basta não usar substâncias alteradoras de consciência. Mas essa não é uma expectativa razoável. Gatos são atraídos por catnip. Como espécie, nós humanos somos programados para buscar substâncias que ofereçam relaxamento ou alterem nosso humor e nossa consciência.

Já se experimentaram todas as substâncias do planeta que podem ser fumadas, cozidas, destiladas, fermentadas ou ingeridas para ter efeito sobre a consciência. Não é uma tendência nova. Evidências arqueológicas mostram que se produzia cerveja 11 mil anos atrás.

Para ter um mundo livre das drogas (e do álcool), teríamos de eliminar não só a coca, a papoula e a maconha, mas também o trigo, o malte, o arroz, as batatas, as frutas e a cana-de-açúcar.

Em vez de criar políticas baseadas na crença de que os humanos são perfeitos e de que podemos ter um país livre das drogas, é muito melhor reconhecer quem somos enquanto espécie e desenvolver maneiras de administrar essas substâncias problemáticas – e a legalização é um pré-requisito para a regulamentação. Temos de parar de usar o código penal para impedir o uso de drogas.

Em vez disso, temos de legalizar, regulamentar, educar e administrar todas as drogas. Não se trata de uma sugestão excêntrica.

A Suíça descriminalizou a heroína em 1994, e o resultado foi uma queda dramática nas mortes e na transmissão de HIV e hepatite, além de redução nas taxas de criminalidade e aumento do recrutamento social dos jovens.

Portugal também descriminalizou todas as drogas em 2001, com resultados semelhantes.

Vamos economizar o dinheiro gasto em prisões, processos e encarceramentos relacionados às drogas.

Esse esforço deveria se concentrar em coibir a venda para menores de idade. E o dinheiro deveria ser investido em melhorar as escolas, que colocam os jovens no caminho de empregos reais.

Também precisamos de recursos para descobrir por que tantos americanos sofrem de dores que só podem ser tratadas com o opiáceo Oxycodone – e, no fim das contas, com heroína, quando eles não conseguem mais pagar os remédio ou conseguir as receitas.

Paremos com a política fracassada da proibição. Fechem as portas para o submundo do crime.

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