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Artigo.Defendendo Puccinelli

Artigo.Defendendo Puccinelli
Me desculpem os leitores, mas vem textão por aí. Não tem jeito. O caso requer uma dose explicativa além da normal. Em primeiro lugar, digo que política é escolha e comparação. Não se trata de decidir entre postulantes do poder com aspectos racionais.

O eleitor compara e decide com base no critério do “mal menor”. Ele (o eleitor) coloca Puccinelli ao lado de seus supostos adversários e faz sua escolha. Ama ou odeia. Nessa hora, pode até sonhar com um candidato puro e santo, mas se tal figura não está na linha do horizonte tapa-se o nariz e vota-se pragmaticamente.

Se tal realidade for colocada desde já na perspectiva de 2018, Puccinelli não pode ser considerado a priori carta fora do baralho.

Por essa razão – nem toda ela, claro – é que faz com que Lula ocupe o primeiro lugar nas pesquisas nacionais e Puccinelli, nas locais.
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Quando o ex-governador recebeu na semana passada o mimo da PF no tornozelo, o primeiro a sair em sua defesa foi seu adversário histórico: Zeca do PT. Mesmo falando algo inapropriado – comparando o caso de Lula com o do ex-governador – suas palavras soaram como heresia, mas simbolicamente foram significativas.

Reconheço que o caso de Lula é diferente do de Puccinelli nos detalhes. Existe, por exemplo, a figura da delação premiada assombrando o petista, o que não existe, ainda, no processo contra o ex-governador.

Mas Zeca mostrou-se mais digno do que muita gente que, durante 16 anos, nutriu-se de cargos e prestígio políticos no entorno de Puccinelli.
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Falou o que pensa e não moitou. Ponto para ele.

Olhando a paisagem política de Mato Grosso do Sul, a partir do momento em que o ex-governador entrou na mira da PF e da juíza substituta Monique Marchioli Leite, da 3ª Vara Federal, a pauta folclorizou-se demais para o meu gosto: a imprensa vem dando com mais destaque às prisões, ao pagamento de fiança, do que, por exemplo, ao conteúdo jurídico do processo que ora transcorre de maneira praticamente obscura.

(Sinto falta, por exemplo, de mais informações sobre o perfil da Dra. Monique, de suas motivações e de casos julgados no seu histórico, mas a mídia local não fala sobre o assunto).

Tudo isso é normal nesse mundo de celebridades localizadas. Mas chega uma hora que se torna cansativo ficar brincando de esconde-esconde, paga-não-paga, vai-preso-não-vai.

Mesmo assim, o dano à imagem de Puccinelli já foi creditada à sua conta. A pecha de ladrão e corrupto está colada indelevelmente ao personagem político. Se o caso vai encerrar sua carreira política isso, certamente, é outro departamento.
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Nesse aspecto, o comentário recente do prefeito Marquinhos Trad é correto: escândalos desse tipo parecem que não derrubam lideranças como Lula e Puccinelli. Por mais que eu deteste a forma como o ex-presidente petista atue no campo político – populismo rastaqüera, desprezo pela inteligência alheia, perfil autoritário etc – não posso negar o direito de seus admiradores de defendê-lo, desculpá-lo e até enaltecê-lo.

Do ponto de vista comportamental, o PT, nesse caso, atua para fomentar a dúvida porque está num mato sem cachorro: o partido não tem outro nome para se apresentar na disputa do ano que vem.

Nesse sentido, guardada as diferenças, o mesmo ocorre com o PMDB de Puccinelli, tirando a questão de que aqui a militância de seu partido está ajoelhada, tremendo de medo da República de Maracaju, com a exceção do deputado Carlos Marun, que segue sua linha de destemor costumeiro.

Conheço André Puccinelli desde 1982. Não sou ingênuo a ponto de inocentá-lo das mazelas políticos em que se meteu. Mas reconheço que o poder não o deslumbrou – e nem à sua família – a ponto dele ostentar a riqueza que dizem que possui.

Fico pensando com meus botões que raios de personalidade é essa que, mesmo sendo-lhe atribuído milhões, leva o sujeito a aceitar viver num apartamento modesto, usando um carro particular modestíssimo, roupas de segunda linha, sapatos de quinta, quando poderia, nesta altura do campeonato, viver numa mansão paradisíaca, ter carrões importados, jatinho particular para viagens ao exterior, hospedando no melhor do melhor do mundo inteiro?

A questão não é trivial. Os principais assessores e colaboradores de Puccinelli – a exemplo de Edson Giroto, João Amorin, Osmar Gerônimo etc, – foram seduzidos pelo hedonismo consumista, esbaldando-se com os sinais exteriores de riqueza, numa demonstração de ganância desmedida. Por que o ex-governador não seguiu esse caminho?.

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Muitos outros – que hoje retornam à base original do grupo político que nasceu no velho MDB na década de 80 – mantém-se discretos, vivendo espartanamente, dentro de padrões confortáveis da classe média, sem, contudo, exibir riqueza nem poder.

Mesmo considerando o perfil de Puccinelli como um burguês liberal, seria de se imaginar – caso sua riqueza fosse conspícua – que seus filhos caíssem no deslumbramento novo-rico, visto que foram formados numa cultura em que o importante não é apenas ter riqueza nem poder, e sim mostrar-se, exibir-se, pavonear-se, esfregando na cara da massa idiota o que é ser esperto nesse Brasil patrimonialista e corrupto.

O caso do ex-senador Delcídio é emblemático nesse sentido. O caso dos filhos de Lula também. Os de Sérgio Cabral idem. João Santana e Mônica Moura, Renato Duque E assim vai…Todos mergulharam na farra do boi misturando dinheiro, doleiros e chicletes.

Quem conhece de perto os filhos de Puccinelli sabe o modo de vida de cada um: trabalham em suas respectivas profissões, são contidos e discretos, não frequentam festas, não habitam colunas sociais, tudo muito irritantemente classe média.

Isso não significa, no entanto, que Puccinelli não tenha feito o jogo do pragmatismo político das últimas décadas, a qual ninguém – ninguém mesmo ! – poderá afirmar que conseguiu ter sucesso eleitoral sem meter a mão em propina, caixa 2, misturando recursos públicos e privados de maneira cínica e despudorada.

A diferença entre Puccinelli e outros (a maioria) é que com ele é possível manter uma conversa republicana, esclarecida e elaborada em torno de projetos de poder e de desenvolvimento econômico do Estado. No limite, trata-se de um déspota esclarecido.

De minha parte prefiro ele com três tornozeleiras a outros (não citarei nomes, mas todos sabem de quem estou falando) sem tornozeleira nenhuma.

Uma questão de escolha e comparação.

Dante Filho
Jornalista e escritor

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