Fronteira

Sapateiros lutam para preservar tradição ‘brasiguaia’ e história calçadista em MS

Saiba onde ainda se encontram as sapatarias de vanguarda e os legítimos precursores que mantêm a memória como nos tempos áureos

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É praticamente impossível encontrar alguém que visite Mato Grosso do Sul (MS) e não se depare com a presença de nossos vizinhos paraguaios. Claro que não é por acaso, desde meados do século XIX com o fim da Guerra do Paraguai, muitos de nossos “hermanos” atravessaram a fronteira e por aqui se instalaram, trazendo na bagagem seus hábitos. “Os paraguaios se constituem no maior grupo populacional que se deslocou para cá, trazendo e incorporando seus costumes e trabalhando em diversas atividades. Na maioria dos municípios a presença paraguaia é marcante”, explica Marcos Leandro Mondardo, professor de Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

No entanto, o que muitos não sabem é que, além de influenciar para a construção de uma identidade singular, eles são exímios artesões de produtos de couro. Ainda hoje é possível encontrar os guardiões dessa relíquia cultural e pioneiros da industrialização no Estado: os sapateiros.

Em diferentes regiões do ‘pedaço mais paraguaio do Brasil’, muitos mantêm a atividade não apenas como sustento, mas sobretudo para preservar a tradição. É o caso de “seo” Mario Benitez, 73 anos, que herdou da família o dom de fazer sapatos. Nascido em Bela Vista, a 344 quilômetros de Campo Grande, o neto de paraguaios veio para a Capital com 7 anos e aos 12 já atuava como profissional em uma fábrica local. Hoje Benitez é dono da sapataria mais antiga da cidade: a Love Story. Com saudosismo, ele lembra os tempos áureos do setor. “Antigamente tornar-se sapateiro era natural no Paraguai, assim que um menino pegava certa idade já ia para a fábrica aprender a profissão e aquilo era o máximo. Aqui nós tivemos grandes indústrias e vários profissionais com essa origem, tá no sangue”.

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Rafael Yrigoyen, 76 anos, é um deles. Natural de Porto Quebracho (MS), cresceu em Pedro Juan Caballero, onde aprendeu o ofício. Foi no tempo em que nem todos podiam andar calçados. “Naquela época era comum a gurizada andar de pés no chão. Eu fui usar sapatos pela primeira vez no colégio quando teve um desfile cívico e não aguentei de dor, daí retirei, amarrei os cadarços um no outro e os joguei no ombro. Depois de algum tempo, já na profissão, fui ver a importância de se ter um sapato”.

Por lá adquiriu experiência, mas foi mesmo em Campo Grande que o senhor de fala ainda enrolada, mas bom de prosa, gravou seu nome na história como um dos precursores na arte da fabricação de calçados. “Eu não sabia que aqui era reduto da “paraguaiada” e quando cheguei, há mais de 40 anos, era comum nas repartições alguém que falava espanhol ou guarani. Foi fácil fazer amigos, sapateiros então nem se fala. Logo nos unimos e passamos a fabricar. Lembro que os produtos, todos feitos à mão, da Selaria Cantero, eram “coisa fina”. Dava muito trabalho, mas valia a pena. Na época era coqueluche”.
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Pespontando o passado, modelando o futuro

Quem passa pela Avenida Calógeras, Rua Antônio Maria Coelho e Rua Dom Aquino, na antiga Estação Rodoviária, ainda é possível encontrar cenários que nos remetem a décadas passadas. São objetos e adornados de couro, selas, estribos, máquinas de costuras e claro, muita prosa. É bem ali próximo dos trilhos da Orla Ferroviária que está instalado o paraguaio Silvano Godoy, 74 anos, conhecido por Monge. No mesmo ponto há 33 anos, sua sapataria trabalha apenas com consertos e encomendas, mas se persistir um pouco ele conta como era método de fabricação da mesma época de sua máquina dos anos 70. “As etapas são as mesmas de uma grande fábrica: modelagem, corte, costura, montagem e acabamento. No entanto, em cada uma delas durava um tempão para ser concluída. As próprias ferramentas, por exemplo, nós mesmos fabricávamos de acordo com o gosto e estilo de cada um”.


“Eu utilizava bastante o vidro para dar um acabamento bem alinhado na sola, nenhum outro material o substituía com tanta precisão. Além de colocar uma lixa bem fininha nos dedos para deixar o couro mais lisinho. Chegava a queimar de tanto esfregar”, lembra Yrigoyen.

Já o gaúcho de Tenente Portela (RS), Adair Brum, não enfrentou as mesmas dificuldades dos veteranos. Quando iniciou, o seguimento estava em fase de modernização, com maquinários mais eficazes à produção em grande escala. Foi em Mato Grosso do Sul que viu a oportunidade de crescimento na carreira. Há seis meses em Campo Grande, atua como supervisor de uma fábrica, mas para chegar até aqui teve de gastar muita sola. “Tive que passar por várias funções como serviços gerais, montador, fechador de bicos, colador de sola, curinga e auxiliar. Daí foi quando fiz um curso do Senai, o que me credenciou como supervisor, o que me deu ainda mais estímulo. Novamente busquei outra especialização, agora em calçados masculinos. A evolução do setor é, a cada dia temos muito a aprender olhando o passado dos nossos mestres e ensinando aos que estão chegando”.

No entanto, são poucos trabalhadores que optam pela indústria calçadista. Para impulsionar a produção local e formar novos profissionais, o presidente do Sindical/MS (Sindicato das Indústrias de Calçados de Mato Grosso do Sul), João Batista de Camargo Filho explica que o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) oferece curso gratuito de pespontador de calçados, área que paga em média salários de R$ 950,00 a R$ 1.500,00 por mês. “Temos um deficit de mão de obra qualificada e o curso possibilita aos participantes a oportunidade de ingressar no mercado de trabalho”.
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Exportando tradição

Hoje, como este tipo de manuseio rústico não é mais necessário, algumas botas ainda são produzidas para agradar a quem aprecia seu estilo peculiar. Como o cantor sertanejo Munhoz, que tem levado Brasil afora o ‘jeito caipira sul-mato-grossense de ser’ como diz na música que acabou de lançar com o parceiro Mariano.

O responsável pelo “bico fino” que brilha nos pés do artista é Odirlei Martins, um douradense que há nove anos comercializa botas confeccionadas de forma artesanal. “Trabalhamos com peles exóticas como de arraias, cobras, boi, avestruz, píton, jacaré, tubarão, lagarto africano, elefante e muito mais. Nossa matéria-prima é totalmente certificada e tem a devida autorização do Ibama, sendo toda de animais de cativeiros. É muito prazeroso ver o nome do nosso Estado em destaque até em outros países. Além do produto, exportamos nossa tradição”.
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AMAMBAY EMPENHO

O próprio Martins auxilia no processo de corte dos couros, mas quem entra mesmo de sola na fabricação é Ramon Nuñes, que demonstra a cada ponto de sua agulha a habilidade herdada dos pais. Isso mesmo, dos pais. Isso porque o pai Roque Nuñes e a mãe Braulia, também são sapateiros. E não para por aí. “Somos em cinco sapateiros na família, meu irmão e um sobrinho também são”, revela Roque. Sobre o fim da tradição brasiguaia por falta de novos profissionais no mercado ele é pontual. “Não pode e não vai acabar. Essa profissão é muito bonita, acredito que sempre vai haver alguém querendo aprender”.

Pedra no sapato

A entrada de mão de obra na indústria de calçados ainda se mantém relativamente baixa e o custo continua sendo um fator importante no mercado internacional. Grandes fabricantes buscam matérias-primas e subcontratam as atividades mais intensivas em mão de obra naqueles países onde esses recursos são mais abundantes, como nos asiáticos. “A carga tributária que o empresário brasileiro paga é muito pesada em comparação com outros países, o que torna praticamente inviável novos investimentos. Hoje os produtos importados da China atrapalham muito o mercado interno. Para se ter uma ideia, segundo último levantamento feito pela Federação das Indústrias de São Paulo, a cada contêiner que chega de lá representa 15 empregos a menos no Brasil. Sem contar a falta de incentivos, e pior, somos ainda taxados com mais impostos”, alerta João Camargo.

Em contra-ataque a Fiems repudia a articulação do governo federal para o retorno do conhecido “Imposto do Cheque” (CPMF), por exemplo, e da Medida Provisória 669, que altera o sistema de desoneração da folha de pagamento. “A Fiems é contra a criação de qualquer imposto, tributo ou contribuição, em qualquer esfera governamental. Essa tentativa é uma ação do governo federal, que, mais uma vez, coloca na conta do setor empresarial e da sociedade como um todo o seu descontrole e falta de organização das contas públicas. O governo federal sinaliza que fará cortes nas despesas, mas opta pela elevação de impostos dia após dia”, analisou o presidente Sérgio Longen. midiamax

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